Saltar para o conteúdo

Amplificadores a válvulas

17 de Dezembro de 2004

Um amplificador a válvulas é como um velho amor, ao qual juramos nunca mais voltar, até que um dia o passado invade o presente.

A razão tenta travar-nos: está ultrapassado, gasta demasiada energia, é frágil, tem uma saúde débil, fica «em brasa» por dá cá aquela palha, distorce a realidade…
Mas o coração só vê o envolvimento emocional, a musicalidade, a doçura da voz e aquela auréola luminosa que brilha no escuro como um fogo que arde sem se ver. À memória vêm os dias felizes que passámos juntos, a música preenchendo cada espaço da alma num quente aconchego de lareira acesa, a casa habitada pelos melhores intérpretes, os discos sucedendo-se num não querer mais que bem querer.

A razão diz-me que os amplificadores a válvulas são falsos. O que parece doçura não é afinal mais que amarga distorção harmónica: a verdade nunca se mostra na sua nudez original, mas antes envolta num manto diáfano de coloração eufónica. Já houve quem, tendo-os analisado a frio e a quente, tenha concluído que as válvulas «pintam» a realidade musical com os olhos da loucura difusa de Van Gogh, a disforme extravagância de Dali, a desintegração formal de Picasso, a subtileza cromática de Matisse, a luminosidade crepuscular de Turner.

Contudo, ao traço definido e metódico, mas frio, do transístor, prefiro mil vezes a mão trémula do pintor de vácuo guiada pelo ardor da paixão; à precisão matemática dos ângulos e das perspectivas, prefiro a convivência caótica das linhas e a ambiguidade das sombras. Com uma condição: do aparente caos de formas e cores deve nascer um objecto artístico. A Arte não tem de ser a própria natureza ou a sua imitação fiel. A reprodução exacta está limitada pela realidade. A Arte não. Ouvir um amplificador a válvulas tem sobre nós o efeito catártico de uma tragédia grega; a acção balsâmica do riso comedido da comédia clássica. A piada, escreveu Kant, é uma forte expectativa que se desvanece no próprio acto de rir. A comédia não: ensina, faz pensar, perdura na memória. Neste contexto, há por aí muito amplificador que não passa de uma piada de mau gosto.

Os amplificadores a válvulas não são perfeitos. Mas ouvi-los dissipa a angústia de termos de viver com o pecado original, e ajuda-nos a aceitá-los como apenas mais uma idiossincrasia que decorre do facto de sermos apenas humanos e – tal como eles – imperfeitos.

A audição dos amplificadores a válvulas produz em nós uma indefinível sensação de bem-estar, que tem tanto de emocional como de física: a ilusão de presença, de espaço e principalmente de profundidade do palco sonoro é tão real, tão palpável, que não pode ser apenas ilusão. A riqueza harmónica confere ao som um corpo que, para utilizar um chavão dos críticos de vinhos, quase se pode «mastigar». Na prova, as válvulas «sabem» a fruta fresca: ameixas, com o toque exótico da canela, os taninos arredondados…

Os espíritos mais racionalistas dirão: sim, mas isso não passa de um truque resultante da inteligente manipulação da distorção harmónica, como os testes laboratoriais podem provar. Não refuto o poder da ciência para desmistificar as crendices que rodeiam o mito da superioridade das válvulas sobre os transístores. Mas gostava que me apresentassem provas laboratoriais dos efeitos benéficos do estágio do vinho em pipas de carvalho francês. E, contudo, elas existem: basta provar…

Na audição de «When I look in your eyes», o amplificador a válvulas despiu Diana Krall com luvas de pelica, revelando coisas que eu nunca tinha ouvido antes nas outras mil vezes: a captação «em cima», num «close-up» obsceno, que faz Diana soar maior-do-que-a vida: a orquestra gravada numa acústica diferente parece ter sido adicionada posteriormente, como quem barra com creme um bolo já feito; o saxofone entra de rompante na mistura para logo o engenheiro lhe baixar o som a meio de uma frase.

Tudo isto é evidente mesmo no rádio do carro. Não é preciso, pois, um grande amplificador para revelar o que já se sabia: que não há bela sem senão. Mas só as válvulas nos transmitem a extrema sensualidade das bolhinhas de saliva rebentando nos lábios doces de Diana Krall, ou nos permitem identificar o amplificador (também a válvulas) da guitarra de Russell Malone, cuja interferência RF (uma estação de rádio próxima?) se ouve distintamente no canal direito na abertura de «When I look in your eyes»…

Um abraço ao José Victor Henriques HI-FI Clube

7 Comentários leave one →
  1. 25 de Maio de 2005 09:47

    Quem escreve assim não é gago, muito menos surdo.

  2. 21 de Novembro de 2008 04:49

    Eu tava procurando válvula pro meu amp e o mestre Google me joga numa roubada dessas!
    Eu até gosto do meu amp válvulado, mas Diana Krall não é exemplo de nada minimamente decente em música.
    E que texto pedante de merda!
    (Tô com muita vergonha de quem escreveu isso!)

  3. 8 de Junho de 2009 15:40

    Realmente anda ai a loucura das ditas valvulas,mas ha que ter muito cuidado na escolha,pois nem tudo toca como nos gostamos.
    alguns tenhem que levar transformaçoes que deveras sao mais caras que o proprio aparenho,mas no final realmente vale a pena,para quem aprecie boa musica e tenha tempo na vida de hoje.
    Escrever textos assim vale apena visitar este site,pena é que nem todos tenham ouvidopara boa musica ou nao saibam ler um texto com classe,mas o nome”terrorista ” dis-nos logo tudo sobre essa pessoa,enfim deus veio ao mundo e nao agradou a todos.

  4. 15 de Junho de 2009 16:35

    caro joao monge ferreira

    os amplificadores a válvulas são como aquelas mulheres feias mas de quem se gosta e não se consegue viver sem elas.

    têm distorção pra carambas, “adulteram” a música por força disso, mas dão-nos aquele suave encanto nas vozes que um solid state (transistores) não consegue dar. ouço válvulas desde os 8 anos e estive recentemente 1 ano a ouvir solid state. havia qualquer coisa que “falhava”, faltava-me algo, o prazer de ouvir música não era aquele que eu tinha antes. ao fim de uma hora chateava-me, desligava, mudava.

    eis senão quando fui a casa de um amigo que “modifica” aparelhos e ouvi um chinoca a tocar maravilhosamente (dynavox VR 70 E) e todo aquele encanto que eu julgava perdido voltou, ali estava o Patxi Andion com aquela voz única a encantar-me com a “jacinta”, ali estava a Marta Gomez, a Katia Cardenal, a Rosa Leon, o Joaquin Sabina, a Paloma Berganza a deliciarem-me com as suas vozes únicas.

    claro que fui logo comprar um amplificador de retoma, pedi ao meu amigo jorge para o modificar (sim porque ele sem ser modificado toma muito pouco para além de ter defeitos de construção) e desde esse dia até hoje delicio-me novamente com o encanto das válvulas. a macieza do som, a harmonia dos instrumentos, o palco sonoro e a definição por vezes fantasmagórica das vozes proporcionam-me horas e horas consecutivas de audição sem aquele cansaço que os maus amplificadores debitam.

    também não gosto da diana krall mas como digo “os gostos são coisas pessoais e intransmissíveis”, é muito comercial, nada natural.

    fiquem bem e acima d etudo ouçam música e divirtam-se, seja com que amplificador seja (solid state ou válvulas).

    jose mario

    joebarbosa@sapo.pt

Trackbacks

  1. rushmore casino bonus code
  2. poker 7 stud hi lo
  3. life insurance

Deixar uma resposta

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Modificar )

Imagem do Twitter

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Modificar )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Modificar )

Connecting to %s

Seguir

Get every new post delivered to your Inbox.